Dentinho (Roger Dee) é dj e ex-grafiteiro que está envolvido com o Hip-Hop na capital mineira desde os seus primórdios até hoje.

Ele viu o movimento surgir, diminuir e retornar com força total. O break de Belo Horizonte já foi considerado um dos mais originais do país, assim como o graffiti. Este, até hoje, é muito respeitado e visto como uma referência no Brasil. Dentinho esteve lá, viu tudo surgir e crescer.

Como foi o surgimento do graffiti em BH? Comecou pelos bboys, certo?

Dentinho: Isso. A nossa crew foi a primeira da cidade, a Break Crazy. Mas as pessoas têm que entender que o hip-hop começou por causa da moda. Foi com o filme Beat Street, que assistimos no cinema, em 1984, que tivemos o primeiro contato com o que eram todos os outros elementos do hip-hop. Com o tempo foi sendo descoberto que por trás daquilo ali havia uma cultura. Essa cultura se estabeleceu depois que a moda passou. E o graffiti apareceu aqui um pouco depois do primeiros bboys. Foi com esse filme que tomamos conhecimento do que realmente era graffiti, foi a primeira vez que vimos um cara segurando uma lata de spray e fazendo um traço.

E como que isso se transformou no primeiro graffiti? O primeiro desenho na parede?

D: Bom, na verdade, tudo começou no papel ainda. Não foi pra lata direto. Nas crews de Bboys sempre tinha alguns mais interessados em desenhar. Eu e outro cara, o Ulisses, começamos a desenhar nas capinhas de fitas K7 que gravávamos com os funks.

Agora, sobre o primeiro graffiti… Há uma história que quase ninguém conhece. Antes de a gente mandar aquele que passou a ser considerado o primeiro de BH, tinha um cara que escrevia “Zong” ou alguma coisa assim, mas era graffiti mesmo, nunca descobrimos mais nada dele, ninguém sabia quem era.

Mas aí, quando a gente viu esse desenho, resolvemos mandar o nosso, que foi ali no Anchieta também, no bowl de skate. Era um lugar meio abandonado, então não tinha muito risco. A gente escreveu “On Way Break”

E como que isso repercutiu nas outras crews?

D: O pessoal ouviu falar, foi bem comentado, mas tudo ficou parado um tempo depois desse primeiro. Aí, alguns meses depois, resolvemos fazer um encontro de break no bowl. As outras crews da cidade foram no encontro e viram o resto do meu desenho que ainda estava lá. E como os grupos sempre tinham um desenhista oficial, todo mundo ficou empolgado.

E aí que a coisa engrenou…

D: É. Os grafiteiros passaram a ficar um pouco mais independentes das crews. Naquela época (1986) éramos seis na cidade inteira: eu, Angelo, Bá, Sol, Beto e Nêgo. E começamos a achar e eleger uns locais para praticarmos. Esses lugares acabavam virando o ponto de encontro do pessoal. Na verdade, o Angelo era o melhor grafiteiro de todos. Ele influenciou muita gente, não só em Minas Gerais. Ele representou uma evolução na arte, o primeiro artista real de graffiti. Ele era meio louco, umas idéias muito diferentes.

Teve uma história curiosa. A gente tinha uma festa grande de grafiteiros, bboys e djs na Av. Afonso Pena, na passagem abaixo do pré-vestibular Palomar, toda sexta-feira à noite. O Angelo teve a idéia de grafitar por cima de um tapume (foto) e saímos carregando esse painel daqui do Carlos Prates até o Palácio das Artes (próximo ao Palomar) e o acorrentamos na grade do Parque Municipal. Ou seja, o primeiro graffiti do centro de Belo Horizonte foi literalmente carregado daqui até lá. Ficou mais de 1 ano lá parado, ao lado do Palácio. Enquanto o tapume estava lá preso, as pessoas iam passando e arrancando alguns pedaços dele, até que não sobrou mais nada. Fizemos isso um pouco por essa coisa de chegar e mostrar o nosso desenho lá perto do local “tradicional” da arte na cidade.

Mas o Angelo influenciou muita gente. No fim da década de 80, quando os gêmeos vieram de São Paulo a BH, eles ficaram muito impressionados com a identidade do trabalho dele.

Tinha uma comunicação entre o graffiti de São Paulo e o de BH?

D: Tinha. Mas havia uma diferença clara entre as duas cidades. Em São Paulo tinha muita informação. Mesmo no início do movimento, o acesso a livros, filmes, revistas era muito maior. Então o trabalho dos grafiteiros de lá sempre foi muito influenciado pelo o que rolava lá fora, nos Estados Unidos. Já aqui em BH, a gente tinha que pesquisar muito para encontrar pouca coisa, às vezes uma foto pequena, num canto de uma matéria. Isso fez com que a gente tivesse que desenvolver um trabalho bem autoral, criar técnicas, uma identidade própria. E foi exatamente isso que gerou mais interesse do pessoal de fora em relação ao grafitti mineiro. Tanto que quando o Angelo e esses artistas mais do início e que já tinham desenvolvido um trabalho com um diferencial começaram a parar, teve um declínio forte na cena belorizontina.

E quando que o graffiti ressurgiu e se estabeleceu até o momento atual?

D: No meio da década de 90, a galera foi se encontrando novamente e resolvemos formar um novo grupo: o Arte Graffiti. E nessa mesma onda de retomada, o salão de cabeleireiro Preto e Branco topou fazer um encontro reunindo todos os artistas. Foi o evento “Grafitando BH”, que misturou a oldschool com a newschool. E esse momento foi muito importante, foi o renascimento mesmo. Nessa época passou a ser muito mais fácil conseguir spray, tinha muito mais gente pintando e então os muros foram “tomados”. E esse é o momento atual. Tem muita gente boa produzindo atualmente, como o dalata, o hyper e o Ramon.

E quanto mais gente pintando melhor? Ou corre o risco de uma banalização.

D: Dentro da cultura hip-hop hoje, o que está mais resolvido é o graffiti. No sentido de que é o que está mais definido, que tem mais gente fazendo, produzindo, na rua. Mas o risco de banalização existe. Só que dentro do movimento mesmo há uma consciência de escolher bem os locais. E, principalmente, ter esse respeito pela história, pelo o que já aconteceu. Embora o hip-hop em BH atualmente já não seja uma referência tão grande como foi na década de 80, acho que quem tá representando o graffiti hoje em dia tem esse respeito e essa consciência.

O primeiro graffiti de BH