m 1984, uma edição da revista Status refletia em uma capa com carros voadores e uma personagem trajando roupas futurísticas: Como será o mundo daqui a 10 anos?

No texto eram aventadas as possibilidades tecnológicas da década seguinte. Novas máquinas, novos remédios e um novo modo de viver.

Onze anos depois, uma edição especial da Veja anunciava na capa: Computador. O micro chega às casas. Entre anúncios publicitários da IBM, Macintosh, e de outras fabricantes, o assunto era, principalmente, o impacto social dos PC’s na vida de cada um e de todos nós no Brasil e o mercado crescente.

Outubro de 2007, da revista A Rede ilustra com fotos e números um texto intitulado A revolução da banda larga. A foto em destaque: o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, cercado por pequenos alunos de uma escola pública, na cidade de Piraí (RJ), com laptops novos em folha sendo erguidos e celebrados. Mesmo com um ar de foto produzida, a propaganda não é completamente sem valor e razão.

Pouco mais de duas décadas separam os três textos, mas as previsões e a realidade verificada entre cada um deles são muito diferentes.

Atualmente são mais de 7 milhões de usuários de banda larga no país e o número vem crescendo mensalmente. Esse dado, obviamente, é mais denso na região Sudeste. No contexto de 186 milhões de habitantes esse é, sem dúvida, um número bastante baixo.

A média de tempo de conexão do brasileiro é de 18 horas por mês. Mais do que o Japão, por exemplo (onde uma conexão de 120mbps custa apenas 65 euros). Mas, por outro lado, é certo que os orientais se conectam à internet de diversas outras maneiras além do computador. Os videogames e celulares têm substituído o PC como principal maneira de se acessar a rede. Mais de 17% da população brasileira está conectada à internet. É um dado importante, tendo em vista que em 1995 apenas 1% da população brasileira estava conectada. Se consideramos que as classes mais ricas já eram e continuam conectadas, o crescimento percentual de acesso foi, principalmente, das classes mais pobres.

É verdade que ainda uma parte da população continua completamente excluída de qualquer uso do computador. Mas é uma parte da população que está excluída também de diversos outros direitos.

Se um dos principais poréns passa pela inviabilidade de parte da população em adquirir um computador por razões econômicas, as políticas passaram a incentivar a queda do preço das máquinas.

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Belo Horizonte não é a capital de nada. Fora as qualidades gastronômicas e uma suposta hospitalidade dos seus habitantes, a capital é dificilmente reconhecida por ser símbolo de alguma coisa. Com mais freqüência a capital mineira aceita o título de cidade dos botecos e tenta emplacar outros mais recentes como a cidade do esporte radical. O segundo está longe da realidade e o primeiro não é exatamente um motivo de orgulho.

Outros fatos muito mais interessantes podem passar desapercebidos para o olhar menos atento. Belo Horizonte é a sede latino-americana do centro de pesquisas do Google. É também uma das primeiras cidades a implementar uma versão on-line do Orçamento Participativo. Há alguns anos conta com diversos festivais de música eletrônica e de mídias digitais (alguns retomados nos últimos anos). A capital mineira vai ser um dos primeiros municípios brasileiros a ter 90% da sua área coberta por conexão a internet sem fio. Esses fatos estão longe de formar alguma identidade, mas talvez um olhar mais atento seja capaz de enxergar alguma linha de lógica invisível entre essas características (ou ao menos seria bom que ela existisse).

Recentemente a cidade abrigou o encontro dos Pontos de Cultura, o Teia 2007. O evento foi de grandes proporções e de protocolos governamentais. Para alguns, a impressão é que o encontro foi mais significativo para aqueles que já fazem parte da rede do que para quem ainda não sabe bem exatamente o que ela é. Talvez tenha sido um pequeno retrato de um quadro maior: projetos existem, idéias são discutidas, e, antes que qualquer resultado seja evaporado, é preciso fortalecer as conexões com o diálogo entre os projetos.

Fernando Rabelo é artista, integrante da ONG Oficina de Imagens e circuit bender. Opina:

Creio que para a solidificação dos pontões de cultura, para as pessoas que já estão ligadas à política, que de alguma forma integram e buscam meios de atuar, o Teia foi de grande proveito pois possibilitou a troca de informação nacional o que já é de grande importância para o crescimento sócio-cultural. Conhecimento da realidade do outro.

Mas creio que para aqueles que não são envolvidos deixou a desejar no sentido de contextualizar à população esses processos de expansão e de modificação cultural. Como quase todo grande evento cultural (colocando de fora os shows) os mais “entendidos” ou envolvidos é que conseguem absorver a informação produzida nos dias de evento.

De certa maneira, esse foi um dos principais pontos da fala do físico e artista belga Etienne Delacroix, no Simpósio Tecnologias Sociais: os dispositivos móveis como agentes de utopias e distopias coletivas, do festival Arte.mov. O evento foi realizado apenas alguns dias depois do Teia 2007 e, infelizmente, não houve nenhuma ligação entre os dois. Para o belga radicado no Brasil, é preciso ligar os Pontos de Cultura a outras redes, a outros pontos.

Etienne já foi um importante participante de alguns grupos de metareciclagem e é bem familiar à apropriação de computadores por meio da bricolagem. Esses grupos realizam muitas vezes um trabalho silencioso, lento e que pode trazer bons frutos. Porque se a barreira econômica é uma das principais aliadas da barreira tecnológica, é preciso saber que há possibilidades viáveis que já estão sendo colocadas em prática por grupos que atuam de forma independente. Se vivemos um momento no qual há apoio do governo federal para a denominada cultura digital é importante que essas possibilidades sejam aproveitadas.

Felipe Fonseca é metarecicleiro e acompanha há um bom tempo as possibilidades entre a tecnologia e os movimentos sociais. Com a sua experiência, ele avalia hoje de forma mais serena esse cenário. “Minha visão tem mudado, claro. Já vi casos de ‘mudança social’ potencializadas pela rede, mas no começo da MetaReciclagem
eu era bem mais messiânico. Também existe muita conformação
social ratificada pelas tecnologias, o uso sem reflexão ou aprofundamento, o fetiche da tecnologia exacerbado pelo ritmo incessante das novidades que as redes criam”.

Potencializadas porque, dentro e fora da rede, no fim, somos nós que restamos. Ninguém assume, automaticamente, um novo comportamento ao usar um teclado, um mouse, um monitor e uma conexão a internet. Ela, infelizmente, não é a solução para os nossos problemas. E talvez seja mais duro para alguns do que para outros perceber isso. Como se sabe, depende do grau de idealismo que vamos acumulando durante a vida. Wilson Gomes, professor da UFBA, esteve em Belo Horizonte dias antes do Teia 2007 para uma palestra na Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Para ele, não há um novo público politicamente ativo formado pelas redes. O que se constata é: quem participa online é quem participa offline. Se não ocorre crescimento da participação de um lado, não haverá, naturalmente, do outro.

A Prefeitura de Belo Horizonte vem investindo nos últimos anos em políticas digitais públicas. A mais conhecida delas é a versão on-line do Orçamento Participativo (OP). O OP digital, embora tenha sido inaugurado em 2001, em Ipatinga (MG), em BH ganhou, naturalmente, maior publicidade. No último ano foram 500 mil votos na versão digital. De acordo com Edson Martins, assessor de comunicação da Secretaria de Planejamento Urbano, que foi a responsável pela coordenação do OP Digital, a previsão é que a próxima edição ganhe mais recursos interativos e de debate on-line.

“Utilizar a internet para ampliar o debate, comprimir tempo e espaço, virtualizar a política, me parece promissor, desde que não venha embalado como solução milagrosa ou que se reduza a participação à mera votação. Uma característica dos usos colaborativos das novas tecnologias é justamente a retomada do social, do convívio, do hábito de debater, trocar informações, conhecer-se pelo reflexo no outro, no grupo” , afirma Fonseca.

Para Márcio de Araújo Benedito (o China), ex-funcionário da Prodabel (Empresa de Informática e Informação de Belo Horizonte ), braço computacional do governo mineiro, a experiência do OP Digital provou que há a possibilidade de formar um novo público politicamente ativo na internet.

Por mais que a prefeitura tenha se esforçado em colocar pontos de acesso à internet em todos os cantos de BH, alguns ficaram subutilizados porque a comunidade no entorno não internalizou a cultura da vida digital.

Antropologicamente falando, as pessoas de menor renda e escolaridade não usam máquinas no dia a dia, mesmo as mais simples como batedeiras na cozinha ou lavadoras de roupas, fazem todas as tarefas na mão e de modo artesanal. Um computador para estas pessoas é apenas mais uma máquina, que ela não vai usar por não ter cultura de uso de máquinas em geral, preferindo participar da democracia do jeito tradicional.

Falando sobre o orçamento participativo, temos uma grande parcela da população que tradicionalmente não participa, porque as assembléias presenciais e o calendário extenso não a estimulam. Existe ainda os que, além de tudo, não se sentem contemplados porque nenhuma obra em pauta os atende.

Com o processo eletrônico pela internet estes grupos têm a chance de participar sendo estimulados até pela novidade, configurando sim este “novo público”. Basta ver a experiência já realizada que mobilizou os comerciantes do Mercado Central, a ponto de instalarem por conta própria um computador com internet para votação e anunciar de hora em hora pedidos de votos no sistema de som interno; e dos fiéis da Igreja Universal, que votaram maciçamente a pedido dos pastores. Estas duas agremiações que estão no entorno da praça Raul Soares conseguiram em duas semanas virar o placar da votação e vencer os concorrentes depois de estarem em terceiro lugar com uma diferença de mais de 2000 votos. Certamente estes que votaram no exemplo citado não participariam com a mesma força se a votação fosse presencial.

Se estamos falando da possibilidade de construção de uma esfera pública virtual, um dos seus principais pré-requisitos é o crescimento do número de acesso, principalmente nas classes mais pobres e normalmente excluídas. Por mais ardiloso que seja o termo “inclusão digital”, ele tem um objetivo claro: não deixar que o acesso às tecnologias digitais seja mais um fator para reforçar desigualdades.

Tanto o acesso quanto a acessibilidade são dois fatores de extrema importância para que os projetos sejam positivos. Em relação ao primeiro, o governo vem investindo em planos para que as pessoas possam conectar-se à internet em diferentes pontos da cidade. Foi anunciado este ano que a prefeitura vai criar uma rede sem fio em 90% da capital. O projeto inédito no Brasil faz parte do programa BH Digital e vai interligar secretarias, bibliotecas, telecentros, centros culturais, parques, associações de moradores, escolas, entre outros. Em algumas regiões o acesso à internet chegará antes do telefone.

Por outro lado, iniciativas que buscaram o mesmo objetivo em algumas regiões da cidade tiveram problemas com o próprio governo. Uma oficina realizada em 2006 por meio de uma parceria entre a ONG Oficina de Imagens, um grupo de ativistas espanhóis do bairro Lavapies de Madrid e o centro cultural NUC buscou implementar de maneira barata e prática acesso à internet sem fio no bairro do Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte.

“A curto prazo serviu como um levante de informação e para mostrar que o aparelho funciona, como também aproximar a realidade tecnológica de baixo custo e a necessidade de informação. A polícia Militar esteve lá para saber o que estávamos ‘aprontando’ em conjunto com o próprio estado, os donos dos servidores de intenet ficaram ameaçando sob pena de ser ilegal fazer tal transmissão, fomos para a TV falar do assunto e iniciou-se uma série de questionamentos como descobrir que colocar pontos nos aglomerados era considerado pouco lucrativo para as empresas provedoras desses serviços”, afirma Rabelo, um dos organizadores da oficina. É importante lembrar que muitas decisões técnicas são decisões políticas.

China foi um dos principais responsáveis pela viabilização da oficina wirelesse no NUC. Na sua opinião, o processo é lento e o resultado a longo prazo.

“A oficina wireless faz parte do processo de internalizar na
comunidade a cultura digital. Introduzir uma nova forma de agir e
pensar. Além disso, com o projeto de interligação de toda a cidade por meio de ondas de WiMAX, permitindo conexão e mobilidade em todos os pontos da cidade, moradores de vilas e favelas, antes marginalizados pelas empresas de telecomunicações que não investiam em banda larga na região por ser comercialmente pouco rentável, passarão a ter acesso de qualidade, ainda que com antenas de lata”, afirma.

Para Sérgio Amadeu da Silveira, “a inclusão digital pode ser uma luta pela democratização global se dela resultar a apropriação pelas comunidades e pelos grupos excluídos da tecnologia. Mas ela também pode ser só mais uma forma de utilizar o esforço público de sociedades pobres para consumir produtos dos países centrais e ainda reforçar o seu domínio.”

Embora não seja uma luta bem x mal, há diversos pontos de tensão e disputa políticas e econômicas dentro desse cenário. Essas questões estão relacionadas ao nosso futuro que está cada vez mais perto do presente.

Abertura do Teia 2007 (foto: Marta Molina)

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