É certo que você não conhece nenhum Raul Costa. Tudo bem, não tem problema.

Talvez você nunca tenha ouvido falar do Retrigger. Nesse caso, já há algo errado.

Fazendo do melhor breakcore há quase 10 anos, já era para seus ouvidos terem trombado com as mp3s dele por aí. Ok, ok… nem tudo está perdido para você. Aproveite a ocasião: Retrigger (sim, o Raul Costa) acabou de soltar o seu mais recente álbum: O Ornitorrinco Voador. Tudo totalmente baixável em seu site – http://retrigger.net

Rótulos são sempre armadilhas. E definir o som do Retrigger (espero que nesse momento você já esteja baixando o disco) é ainda tarefa mais difícil. Comece com batidas pesadas, rápidas, desconcertantes e…. felizes. A coisa só melhora quando você acrescenta sambistas jogando videogame e personagens de filmes antigos de ficção científica dançando ska. O barulho que isso tudo produz é a diversão que você sente logo nos minutos iniciais de qualquer performance ao vivo do Retrigger.

Ele poderia ser um daqueles músicos que vivem reclamando da falta de espaço, público, reconhecimento e das injustiças das leis de incentivo. Basta sentar em qualquer buteco MPB de esquina para escutar o chororô. Mas ele não perde tempo com isso: prefere se divertir e fazer outras pessoas se divertirem. Até parece que estou falando de algum humorista, mas você vai entender assim que você ouvir as primeiras músicas do disco que você está baixando nesse momento (vamos lá, o download já deve estar quase nada metade).

Juntamente com o disco novo foi lançado o clipe da primeira música de trabalho, EZ Money. Vale muito a pena conferir!

Com a palavra, Retrigger!

Quase 10 anos de música, certo? Muita coisa aconteceu no mundo (da música também) nesse período, hein. Qual a maior lição nesse tempo todo em relação a fazer música, lançar discos, tocar ao vivo, etc?

Muita coisa na minha vida também! Quando eu comecei a fazer música, eu usava um 486! Nossa em relação a isto melhorou muito!

Não sei se tirei muitas lições desses 10 anos. Acho que uma coisa que entendi é que eu não vou parar de fazer música nunca e que isso me faz muito bem, mesmo que muitas coisas ainda vão mudar na minha vida, acho que eu achei uma coisa que vai me segurar até o final.

Sobre fazer shows, acho que deu pra aprender muito. Meu primeiro show como Retrigger foi em 2002. Foi horrível, vergonhoso até. Fiz com um desktop gigante, numa TEMP, no Club Susi in Transe em São Paulo. Inicialmente eu pensava em mostrar minha música, mesmo, uma coisa meio vitrine, que era chata pacaralho. Depois entrei numas de fazer um show em que mostrava mais firulas, quebrando as batidas ao vivo, tocando tudo no teclado do computador. Eu ficava grudado no computador, remexendo variáveis a todo momento, quase num transe. Melhorou um pouco o show e me ensinou muita coisa técnica sobre computadores, produção e tudo mais, mas ainda sim era um pouco chato. A maioria das pessoas não tinha muito como se relacionar comigo e com o que eu estava fazendo. A partir de toda a vivencia que eu já tinha ao vivo, fui delimitando o efeito que eu queria causar no público e fui chegando no formato atual, que ainda não é o final com certeza. Uma performance ao vivo é uma coisa bem complicada, mesmo. Ainda mais tocando só com um computador.

Ocupar um palco sozinho demanda muito do artista, por isso acredito que muita gente tenta se esconder atrás do computador e ser “técnico”. Por isso eu to tentando todo o tipo de coisa pra ver se é possível transmitir com a música o sentimento que tenho ao fazer, mas ainda não achei um formato bom.

Acho que a lição que fica é que é preciso muito mais que música nas caixas pra fazer um bom show.

Você disse uma vez que acha que demorou um pouco para jogar tudo o que produzia na internet. Você acha que o caminho é esse mesmo?

Acho que existe muitos caminhos, que dependem de todo o tipo de coisa. Teve esta época que, depois de lançar um disco na Europa, eu esperava receber mais convites do tipo e fiquei guardando as músicas no computador e mandando demos diretamente para os selos. Eu até recebi vários convites mas foi num momento que o fenômeno do mp3 começou a atingir os selos indies também e vários deles não conseguiram lançar os discos. Mais de três discos completos meus foram jogados fora nesta época, porque fiquei esperando os selos e acabou que depois de meses e anos, já não estava satisfeito com as músicas e partia para outras.

Daí parti para os mp3, meio que voltando ao meu processo inicial de distribuição, em que fazia as músicas e subia na hora para o meu site ou para o site da widerstand.org. Só que desta vez preferi organizar a coisa em um disco, com uma sonoridade semelhante. Acabou que funcionou muito bem e fiz assim o Jeanie and Caroline, que depois foi redistribuído por três outros selos virtuais em outros países. Fiquei bastante satisfeito mesmo com a forma que isto aconteceu e isto me reabriu varias portas e me colocou em contato com muitas pessoas e artistas interessantes, um objetivo que tinha se perdido enquanto eu achava que podia vender música por aí.

Atualmente, eu penso sempre nos lançamentos gratuitos em mp3, mas não descarto outros formatos. Ano passado participei de coletâneas em CD, vinil, mp3 de graça e pago. Todos me parecem válidos. Nenhum deles me deu nenhum centavo, mas continuei fazendo os contatos que eu queria. Este ano saiu o Ornitorrinco Voador em mp3 gratuito, pela Cock Rock Disco e daqui a pouco sai um vinil, com 3 músicas, pela Noise:Tek uma gravadora escocesa. Estou empolgado com os dois lançamentos e espero fazer mais coisas nesses formatos no futuro.

A gente sabe que BH é a capital da Surf Music (ao menos durante o Campeonato). E esse papo que gente sempre ouve que BH tem uma cena respeitável de música eletrônica? Tem mesmo? Por que não rolam parcerias com outros produtores / bandas?

Uma cena respeitável? Não sei, viu. Temos vários produtores, que normalmente se encontram em alguns festivais, por exemplo o BPM, que foi interessante. Mas não vejo a coisa como uma cena tão coesa. Uma coisa que tem que ficar claro é que música eletrônica não é um gênero em si. É só um meio. Uma cena se forma em volta de um gênero de música, por exemplo trance, ou techno, ou drum and bass. Apesar de tudo ser eletrônico, não são as mesmas cenas.

Conta como surgiu a possibilidade e como foi a sua primeira turnê na Europa.

Eu recebia vários convites para tocar lá, mas sempre em shows pequenos, que não pagariam minha passagem só pra um show. Por isso, juntei uma grana que eu tinha e me organizei com dois outros artistas, o Death Sitcom e o Adam Strang, nossa turnê por lá. Eu arrumei uns cinco shows sozinho, só no email e nos meus contatos e eles correram atrás dos outros. Fizemos nove no total, eu acho.

Foi um negócio bem doido, fizemos tudo de carro e tivemos todo tipo de acidente de percurso. Eu rodei o carro na chuva, batemos num barranco no meio de uma nevasca, acabou a gasolina numa madrugada congelante, o carro foi rebocado na Bélgica. Ficamos em vários lugares sem conforto nenhum, as vezes sem aquecimento e nem colchão… No final todo mundo ficou gripado, mas conseguimos fazer todos os shows e foi uma coisa muito importante pra mim. Alguns shows eu não vou esquecer nunca, como um que eu fiz numa fábrica de vidro abandonada e alagada pela neve derretendo que acabou porque a polícia chegou.

Grandes histórias, é lógico, mas também aprendi muito sobre como fazer um bom show e como interagir com um público de trás de um laptop. Isso foi muito importante mesmo.

Como você define o disco novo em relação aos outros?

É o último, sempre o que a gente gosta mais. Neste eu busquei várias referencias mais roqueiras, de um formato mais canção, do que o tipo de experimentação que eu buscava antes. De certa forma, este disco é a continuação de um movimento que começou no Jeanie and Caroline, em que eu corro atrás de sonoridades mais divertidas, engraçadas até. Saindo um pouco do que era o meu som até 2005, muito abrasivo, pesado, sombrio.

É também o primeiro disco em que eu canto, isto é muito legal pra mim, por que acho que sempre quis tentar isto, mas nunca tive a coragem necessária. Ainda é muito difícil, sou muito desafinado e os meus ganidos me doem o ouvido. Mas to aprendendo que ser ridículo não dói tanto assim.

Agora que vocês está escrevendo letras e cantando modou muita coisa? Ficou muito mais complicado?

Muda muito e fica muito mais complicado. Passei anos buscando uma sonoridade, amolando meus instrumentos e lapidando a produção pra chegar num nível que me deixasse bem orgulhoso, pra depois enfiar uma voz desafinada e mal gravada por cima. É um sofrimento sem fim, ainda mais que eu produzo minha própria voz. Mas depois de um tempo eu acabo acostumando. espero perder um pouco da vergonha e também aprender alguma coisa sobre cantar com o tempo.

Quais são os planos daqui pra frente? Alguma turnê aqui dentro ou lá fora?

Meu plano é tocar em todo o planeta! Mas nada de concreto ainda. Nesse mês de agosto eu toco no dia 20 no Tuba-In, dia 27 no Velvet Club e dia 29 na Casa do Baile, na lagoa da Pampulha (saiba mais da agenda no site). Depois disso, não sei de mais nada. Gostaria muito de tocar em outras cidades, mas ainda não consegui nada concreto. As vezes é difícil fazer esse tipo de contato, morando longe de São Paulo, onde tudo parece acontecer. As vezes rola um desânimo, mas eu estou correndo atrás. É um show relativamente barato de fazer, por que é só uma passagem, um lugar pra dormir, uma pessoa pra alimentar, mas mesmo assim, não estão aparecendo muitos convites.

O que é mais difícil: ter que segurar um show inteiro sozinho lá na frente ou saber que o show pode ser totalmente comprometido por panes eletrônicas?

São dois problemas muito presentes quando se toca musica eletrônica ao vivo. Eu sofri durante anos com as panes eletrônicas até entender que o problema era do meu equipamento. Todo show era uma correria pra resolver coisas na última hora e vários shows acabaram no meio, uma grande merda, pra te falar a verdade. Só depois que eu tive segurança técnica pra fazer um show é que eu pude realmente me preocupar com o palco e como entreter pessoas. A confiança no equipamento é o primeiro passo. Depois vem o resto, que é imensamente mais complicado.

Pronto, já deu tempo de baixar o disco e escutar algumas músicas. Então aproveite que na próxima semana serão duas apresentações em BH para o seu lançamento. Vai ser difícil encontrar outro show mais divertido nas redondezas.