Pesquisa multidisciplinar que envolve arquitetos, engenheiros, psicanalistas e historiadores procura entender o que as pichações tentam comunicar

O espaço urbano – ruas, avenidas, viadutos, prédios, muros – é um local de conflitos visuais. Tudo o que vemos nele diz algo a alguém, com interesses distintos. Discutir esse bombardeio de imagens e símbolos nas ruas é o papel do Projeto Guernica criado pela Prefeitura de Belo Horizonte. Ele é, desde a sua criação, um espaço tanto para a manifestação quanto para a reflexão e contextualização da arte urbana.

A discussão surgiu a partir de um ato simples e transformador: escutar. Em 1999, a Prefeitura de Belo Horizonte buscou entender o que as pichações, que tomam indistintamente centro e bairros da cidade, tentavam comunicar. Dessa iniciativa surgiu uma pesquisa multidisciplinar que envolveu arquitetos, engenheiros urbanos, psicanalistas, historiadores, jornalistas.

A cidade é o suporte do grafiteiro. O que ele enxerga como tela não é certamente visto assim por outros. A pesquisa buscou ouvir os diferentes lados desse convívio. “O diálogo entre prefeitura e pichadores foi aberto, pois anos de experiência demonstraram o fracasso contínuo da abordagem repressiva”, afirma José Marcius Carvalho Valle, um dos coordenadores atuais do Guernica. Os trabalhos giram a partir do eixo reflexão – ação. “Os meninos só vão para o muro depois de uma conversa. Ou seja, a idéia é manter um canal de comunicação entre o muro, o que os jovens querem dizer e o patrimônio público. E que esse diálogo seja mantido e levado por eles”, afirma.

Para a psicanalista Maria Ines Lodi, autora da dissertação de mestrado A Escrita das Ruas e o Poder Público no Projeto Guernica de Belo Horizonte, o Guernica não é um espaço para a formação de grafiteiros. Aos participantes é colocada a pergunta “o que você quer fazer?”. Cabe a prefeitura oferecer o equipamento e o material. O objetivo é deixar claro que existe “vida” fora do grafite: ilustração, computação gráfica, fanzine, pintura, etc. Na visão da coordenação, o caminho a ser tomado pelos jovens é uma procura que parte unicamente deles. “O Guernica vê o grafite como um meio, não como um fim em si”, afirma Maria Inês.

Com o andar do projeto, parcerias importantes reconheceram o talento dos jovens envolvidos e a seriedade do mesmo. Hoje, mais da metade dos componentes da oficina do grupo Giramundo é constituída por artistas provenientes do projeto. Há cada vez mais trocas com outros grupos culturais da cidade. Para Ramon Martins, participante desde o seu primeiro ano, a formação de redes e pontos de produção cultural é uma meta do trabalho. O artista plástico, e ainda grafiteiro, embora não mais integrante do Guernica, já expôs suas obras na Bélgica e na França. “Foi uma experiência muito interessante. Aprendi muito com o projeto, mas agora que estou me formando em artes plásticas, vou seguir outros caminhos”, afirma.

A coordenação e os monitores se reúnem semanalmente. Algumas vezes, convidados participam de um debate sobre a relação entre arte e inclusão social. Figuras importantes como antropóloga Alba Zaluar, o urbanista Rodrigo Andrade e o filósofo Moacyr Laterza já participaram de conversas com os integrantes, para uma reflexão maior sobre temas como a violência, o espaço urbano e a solução artística. O objetivo é pensar o grafite/pichação não como um fênomeno isolado, e sim concebê-lo como parte da comunicação visual das ruas.

Pichador ou Grafiteiro?

A dúvida quanto à nomenclatura acabou por revelar um debate mais profundo. Com os contatos que a coordenação fez com outros projetos de arte urbana internacionais, principalmente em Nova Iorque e Roma, observou-se que fora do Brasil não se acentua tanto a diferença entre pichação e grafite. Tudo é chamado de grafite.

Para o coordenador do projeto, tal separação é excludente e discriminatória podendo levar a equívocos tanto na abordagem dos pichadores/grafiteiros como na discussão relativa ao respeito ao patrimônio e paisagem das cidades. “Torna-se pichação aquilo que é incompreensível para nós e que aparentemente não tem nenhum conteúdo. É preciso relativizar este conceito, não só porque atrás do ‘picho’ temos um dizer e um conteúdo, como eventualmente determinadas peças publicitárias poderão agredir muito mais a a paisagem urbana”, afirma Valle.

O monitor Emerson Silva ressalta que não importam quais são os “muros” , a arte é a mesma, portanto o artista também é. “A distinção surge, na maior parte das vezes, por uma necessidade de categorização e rotulação”, aponta.

Já Lodi afirma que a diferenciação se dá, principalmente, na formação dos grupos. O pichador seria então a primeira fase do grafiteiro. Apesar de não ser uma delimitação bem definida, as “gangues” de pichação são muito fechadas e competem entre si, já as equipes de grafiteiros (como eles preferem ser chamados) se envolvem mais em trabalhos comunitários e têm objetivos mais “maduros”.