Um caos de papel compõe as ruas das cidades grandes. É um sem-número de panfletos, propagandas, cartazes, flyers e outras formas de lixo-celulose.

Um caos de papel compõe as ruas das cidades grandes. É um sem-número de panfletos, propagandas, cartazes, flyers e outras formas de lixo-celulose. O santinho político, a mãe-de-santo que promete a sorte, o corte de cabelo barato, a promoção de celular: o olhar passa sem notar, o papel é jogado fora, logo após ser breviamente consumido. Em meio ao desinteresse completo surge um personagem bem mais interessante: o sticker.

Cláudio Alcântara é um dos que está presente há mais tempo nas ruas da capital mineira. De observador interessado passou a atuar, desenvolvendo seu trabalho pessoal. Durante 15 anos viajou pelas capitais do país, fotografando pixações, desenhos e escritos de artistas anônimos. Logo sentiu a “coceira” e, além de fotografar, começou a realizar. “Eu não tinha técnica com o spray , então, passei a fazer tags com marcador, giz, látex e com xerox. Essa foi uma nova forma de me expressar. Passei a colar por onde andava e por todas as cidades que passava, lançando Xerel”, conta. A personagem surgiu de um rabisco em um bloco de anotações, enquanto o autor falava ao telefone. “Fiz um desenho tosco, mas com uma expressão espontânea que me chamou atenção. Então, produzi alguns stickers e colei em vários lugares. A repercussão foi grande e ela acabou virando um ícone da cidade”, explica.

Uma campanha (anti)publicitária se espalha por Belo Horizonte. A marca é a popstencil e o objetivo é utilizar o espaço urbano para atacar um de seus principais símbolos: o consumismo. É uma marca sem empresa, sede, empresários e até mesmo produtos. O apelo da sua campanha está na ironia e na paródia da publicidade. O meio para se chegar a isso é o adesivo. A escolha tem a ver com praticidade e a facilidade de disseminação da mensagem. Em 2005, o coletivo Sem Rosto lançou o documentário Anuncie aqui. O vídeo acompanha a atuação de alguns grupos de stickers e grafitti na reconfiguração do espaço publicitário e urbano da capital mineira.

Mas nem todo papel necessariamente veicula uma mensagem de contestação. É o caso do yellowdog. O seu dono, o designer gráfico Ricardo Portilho, explica: “É um meio bastante despretensioso que pode simplesmente desaparecer no meio da confusão urbana. E também é perecível, ou seja, nada que você fizer vai durar muito, a chuva, o sol, os anúncios de “compro ouro” ou de videntes vão chegar e cobrir tudo”.

As referências do seu “cachorro” estão no diálogo com a comunicação visual encontrada na sinalização de tráfego. Ricardo começou o seu trabalho ainda em Minas Gerais. Hoje, mora na Holanda mas mantém contato com diversos grupos espalhados pelo mundo. Existe uma rede de troca de informações (e também de stickers) na internet. Por meio dessas conexões são organizados “ataques” às cidades. De acordo com o artista, os trabalhos brasileiros são bastante apreciados em outras terras. “A criatividade e a capacidade de trabalhar com materiais alternativos e reciclados são tipicamente brasileiras”, aponta.

É apenas um adesivo pregado no muro?

“Na verdade, tudo se resume mesmo a isso. Quanto ao conteúdo, pode ser qualquer coisa: anti, pró, contra, a favor ou muito antes pelo contrário. No fim das contas é somente um meio, cada um coloca ali o que quiser”, é o que pensa Ricardo.

A democratização da arte de rua chacoalha a separação entre artista e público. “Talvez isso aponte uma saída interessante para os meios: a coletividade e despretensão comercial em contraponto à autoria e à carreira profissional”, sugere Alexis Azevedo. Ele é integrante do coletivo 403+1, que busca inspiração para o seus trabalhos no fluxo imagético do asfalto: semáforos, faixas de pedestres, placas de trânsito, esquinas. A rua é a inspiração e a tela, ao mesmo tempo. O grupo já atuou em conjunto com outros coletivos como o Pão com Durex e o Poro.

O site streetartblows gerou um debate interessante com uma série de stickers metalinguísticos. A mensagem “keep your art to yourself next time” ocupa os mesmos espaços urbanos e faz referência aos outros adesivos. O autor anônimo do questionamento é direto: “Ao mesmo tempo em que tem muita gente fazendo (street art), poucos estão fazendo bem.”

“Como em qualquer atividade tem que ter treino e um estudo, não necessariamente acadêmico. Um bom trabalho não é realizado sem esforço e disciplina”, explica Xerel, no ramo há quase uma década. É exatamente pela facilidade de fazer parte dela que a “cena” cresce. Ao contrário de expressões como o grafitti, por exemplo, o sticker não exige uma técnica muito apurada do autor. Muitos sequer confeccionam o próprio desenho. Fazem o download na internet, imprimem e seguem para as ruas para colar.


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